O conceito de "raça" em Charles Darwin

O racismo não é um fenômeno específico das sociedades modernas. Desde os tempos mais remotos, o conceito de “raças inferiores e raças superiores” já era uma realidade entre os povos, manifestando-se através da cor da pele, do tipo de cabelo, dos rituais religiosos, dos valores morais, das características culturais etc. O racismo não teve um único berço ou período de gestação: durante toda a história, ele se fez revelar nas mais variadas formas e pelos mais diversificados meios. Todavia, foi somente a partir do limiar da era moderna, mais precisamente a partir dos anos 1400, que o racismo passou a enfatizar a questão da cor da pele. Isso se deu como conseqüência da dominação européia sobre os outros povos (asiáticos africanos e americanos).

Com o avanço da ciência, a idéia de “raça” como fenômeno biológico teve grande destaque nos primórdios do século XVIII. Já no século XIX, com o advento dos conceitos sobre evolução humana, a questão biológica tornou-se preponderante para se classificar uma “raça” como inferior ou superior. Os ideais eugênicos de Francis Galton culminaram numa verdadeira febre racial na Europa. E com o surgimento do chamado Darwinismo Social, a propaganda racista alcançou todo o mundo, servindo de pretexto para a opressão e aniquilamento de inúmeros povos, principalmente na África e na Ásia.

Um dos autores que muito contribuiu com a questão foi o naturalista e capitalista inglês Charles Darwin. Embora a idéia de que havia diferentes “raças humanas” não fosse exclusividade sua, é certo que em todas suas obras ele fez menção desse aspecto. Isso pode ser visto, por exemplo, em seu livro muito pouco conhecido, intitulado “A expressão das emoções no homem e nos animais”, conforme enxertos a seguir, compilados por mim:

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CHARLES DARWIN: “A EXPRESSÃO DAS EMOÇÕES NO HOMEM E NOS ANIMAIS”:

“Quinto, parecia-me de extrema importância estabelecer se, como se afirmou com freqüência, mas com escassas evidências, encontramos as mesmas expressões e gestos nas diferentes
raças humanas, especialmente aquelas que tiveram pouco contato com os europeus. Sempre que determinadas mudanças nas feições e no corpo exprimirem as mesmas emoções nas diferentes raças humanas, poderemos inferir, com grande probabilidade, que estas são expressões verdadeiras, ou seja, que são inatas ou instintivas” (p. 20).

“As respostas referem-se a muitas das mais selvagens e peculiares
raças humanas” (p.20).

“Conclui-se, a partir das informações assim adquiridas, que um mesmo estado de espírito exprime-se ao redor do mundo com impressionante uniformidade; e este fato é ele mesmo interessante como evidência da grande similaridade da estrutura corporal e da conformação mental de todas as
raças humanas” (p. 22).

“Todavia, algumas das dúvidas e dificuldades foram afastadas com a observação de crianças, doentes mentais, diferentes
raças de homens, obras de arte e, finalmente, dos músculos faciais sob o efeito de correntes galvânicas, como realizado pelo Dr. Duchenne” (p. 23).

”Isso foi particularmente auspicioso, pois os aborígines australianos estão entre as mais peculiares
raças humanas” (p. 24).

“As várias espécies e gêneros de macacos expressam seus sentimentos de muitas maneiras diferentes; e esse fato é interessante, pois tem alguma relação com a questão sobre como classificar, em espécies ou variedades, as assim chamadas
raças humanas; pois, como veremos nos próximos capítulos, as diferentes raças humanas exprimem suas emoções e sensações de maneira notavelmente uniforme ao redor do mundo” (p. 115).

“O fato de lacrimejar durante o riso é comum a todas as
raças humanas, como veremos num capítulo posterior” (p. 139).

“A expressão de tristeza, gerada pela contração dos músculos da tristeza, de forma alguma se restringe aos europeus, mas parece ser comum a todas as
raças humanas” (p. 151).

“Fiquei ansioso para saber se as lágrimas acompanhavam as gargalhadas na maioria das
raças humanas, e soube por meus colaboradores que isso realmente acontece” (p. 175).

“Em todas as
raças humanas a expressão de bom humor parece ser igual e é prontamente reconhecida” (p. 181).

“No que diz respeito à alegria, sua expressão natural e universal é o riso; e, em todas as
raças humanas, o riso exaltado faz os olhos lacrimejarem mais facilmente do que qualquer outra causa, excetuando-se a aflição” (p. 185).

“Um ajoelhar-se humilde, com as mãos juntas e viradas para o alto, parece-nos, pela força do hábito, um gesto tão apropriado para a devoção que poderíamos pensar que ele é inato. Mas não encontrei nenhuma evidência desse fato nas inúmeras
raças humanas fora da Europa” (p. 187).

“Veremos, porém, num próximo capítulo, que em diversas
raças humanas a surpresa algumas vezes provoca discreta protrusão dos lábios; embora surpresa ou espanto intensos costumem exprimir-se por uma grande abertura da boca” (p.197).

“A resposta de meus colaboradores foi quase unânime à minha pergunta sobre a possibilidade de se reconhecer as expressões de culpa e dissimulação entre as diferentes
raças humanas” (p. 223).

“Também estava ansioso por saber se o gesto era praticado por outras
raças humanas, especialmente aquelas que não tiveram muito contato com os europeus” (p. 228).

"No geral, percebe-se uma considerável diversidade quanto aos sinais de afirmação e negação nas diferentes
raças humanas” (p. 236).

“Meus colaboradores responderam de forma surpreendentemente unânime no que se refere a essa expressão nas diferentes
raças humanas” (p. 238).

“Não sei se esse gesto é comum a todas as
raças humanas, já que deixei de fazer perguntas sobre esse tema” (p. 244).

“Há ainda um outro pequeno gesto, exprimindo surpresa, para o qual não tenho explicação; a saber, a mão ser colocada à frente da boca ou em alguma parte da cabeça. Isso foi observado em tantas
raças humanas que deve ter alguma origem natural” (p. 246).

“No que diz respeito à manifestação do medo nas várias
raças humanas, meus colaboradores concordam que os sinais são os mesmos exibidos pêlos europeus” (p. 250).

”Os pequenos vasos do rosto se enchem de sangue, pela sensação de vergonha, em quase todas as
raças humanas, ainda que nas raças muito escuras não seja possível distinguir mudança de cor” (p. 268).

“Os fatos aqui recolhidos são suficientes para demonstrar que o
enrubescimento, com ou sem mudança de cor, é comum à maioria, provavelmente a todas as raças humanas” (p. 272).

“Entre os europeus, o corpo todo pinica levemente quando o rosto enrubesce intensamente; e nas
raças humanas que habitualmente andam quase nuas, o rubor estende-se por uma superfície bem maior do que em nós” (p. 278).“Deixei de perguntar em meus questionários impressos se a timidez pode ser detectada nas diferentes raças humanas” (p. 281).

“Também terão dificuldades para explicar por que
negros e outras raças de pele escura enrubescem, já que neles a mudança de cor na pele é quase ou totalmente invisível” (p. 286).

“Há razões para se acreditar, a julgar pelas capacidades de diferentes
raças humanas, que os efeitos são hereditários” (p.287).

“Podemos inferir que esses e alguns outros gestos são hereditários por serem realizados por crianças muito pequenas, pêlos nascidos cegos e pelas mais variadas
raças humanas” (p. 297).

“Esse é um fato interessante, pois acrescenta um novo argumento a favor da teoria de que as
inúmeras raças descendem de um mesmo tronco parental, que deveria ser já quase totalmente humano na estrutura, e em grande medida na mente, antes do período no qual as espécies divergiram” (p. 304).

“Contudo, se considerarmos os numerosos aspectos estruturais que não guardam relação alguma com as expressões, comuns a todas as
raças humanas” (p. 305).

”Entretanto, essa teria de ser a explicação se as diferentes
raças humanas descendessem de inúmeras espécies aborígines distintas” (p. 305).

“Parece bem mais provável que os muitos pontos de grande semelhança entre as
várias raças devam-se à herança de uma única forma parental, que já havia adquirido um caráter humano” (p. 305).

“De todas as expressões, o rubor parece ser a mais estritamente humana; porém, ele é comum a todas, ou quase todas, as
raças humanas, independentemente de se ver ou não alguma mudança de cor na pele” (p. 307).

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Fonte:
Charles Darwin: “A expressão das emoções no homem e nos animais”. Tradução Leon de Souza Loho Garcia. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Charles Darwin: abolicionista e racista

Um dos argumentos mais comuns utilizados pelos darwinistas para afirmar que Charles Darwin não era racista, refere-se ao fato de ser ele um abolicionista, como se a simples adesão ao abolicionismo fosse indício de ojeriza aos ideais de superioridade racial.

Que Darwin fosse abolicionista, não há nenhuma dúvida quanto a isso. Não somente ele, como todo o resto da Inglaterra era abolicionista. Isso, no entanto, não fora motivo para que os ingleses não se sentissem superiores a outros povos, explorando suas riquezas e destruindo suas vidas.

O argumento de que se utiliza os devotos de Darwin em sua defesa, falha por três razões básicas, a saber:

1. Darwin era um cidadão inglês, e como todo bom inglês vitoriano, era orgulhoso de sua nação. A Inglaterra, como se sabe, era contrária à escravidão, todavia, a sua luta contra o sistema escravocrata não tinha qualquer caráter humanitário.
José Dantas discorre sobre isto em “História do Brasil”:
A luta dos ingleses contra o tráfico de escravos não tinha qualquer caráter humanitário. A Inglaterra preocupava-se primordialmente em defender seus interesses econômicos, pois como nação industrial buscava ampliar o mercado consumidor para seus produtos.
Não foi por outra razão que a Inglaterra aboliu a escravidão em suas colônias do Caribe. Porém, naquele momento, a produção agrícola realizada pelo negro livre revelou-se cara do que a feita em regime de escravidão, tornando os produtos caribenhos competitivos no mercado internacional.
Assim, ao impor a extinção do tráfico de escravos para o Brasil e defender a adoção trabalho livre, a Inglaterra estava preocupada não só em garantir mercados para seus produtos industriais como também em assegurar a competitividade dos produtos agrícolas de suas colônias. Portanto, a decretação Bill Aberdeen em 1845 representou, na verdade, um poderoso instrumento de defesa acumulação capitalista inglesa.”

2. Para muitos abolicionistas, era preciso acabar com a escravidão para modernizar suas nações.
No caso da Inglaterra, o fim da escravidão atrelava-se à emergência da revolução industrial. Escravos não podiam ser consumidores pois não recebiam remuneração. Darwin era um capitalista extremamente ligado à estrutura econômica de sua nação, daí não ser nenhuma novidade sua adesão aos ideais abolicionistas.

3. Em “O que é racismo”, Joel Rufino do Santos, referindo-se aos abolicionistas brasileiros, afirma que, para estes: “era preciso acabar com a escravidão para aliviar o sofrimento dos pobres pretos”. “Ora”, completa o autor: “compaixão pelos pretos é o mesmo que, por exemplo, compaixão pelos pobres macacos, que estejam sofrendo de alguma forma”.


Charles Darwin era um homem dotado de grande sensibilidade pelos seres vivos
em geral. Tanto é verdade que dedicou boa parte de sua vida em pesquisas sobre determinados tipos de crustáceos, entre muitos outros animais. Dessa forma, o fato dele sentir compaixão por aquele escravo que padecia nas mãos do seu senhor, no Brasil, não diz absolutamente nada sobre seus “sentimentos de igualdade racial”. Assim como ele não suportava o sofrimento de um cão, não suportava igualmente o sofrimento de um negro. Se essa assertiva não tivesse lá sua lógica, não escreveria ele, por exemplo, a seguinte "previsão": “No futuro, não muito longínquo, se medido em termos de séculos, num determinado ponto as raças humanas civilizadas terão exterminado e substituído quase por completo as raças selvagens em todo o mundo. No mesmo período os símios antropomorfos, conforme tem observado o prof. Schaaffhausen (18), terão sido sem dúvida exterminados. A fratura entre o homem e os seus mais próximos afins se tornará então ainda mais ampla, visto que será fratura entre o homem, num estágio ainda mais civilizado do que aquele caucásico (é o que esperamos nós) e alguns símios inferiores como o babuíno, ao invés de ser entre o negro ou o australiano e o gorila.”

É isso!

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Referências Bibliográficas:
1. José Dantas: "História do Brasil". Editora Moderna. São Paulo, 1989, p. 135;
2. Charles Darwin: "A Origem do Homem e a Seleção Sexual". Hemus Editora. São Paulo, 1972, p. 187.
3. Joel Rufino dos Santos: "O que é racismo". Editora Brasiliense. São Paulo, 1984, p. 54.

A "mão invisível" de Darwin

Segundo o “Aurélio”, capitalismo é um sistema econômico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção, na organização da produção visando o lucro e empregando trabalho assalariado, e no funcionamento do sistema de preços.

Discutir se o capitalismo é o pior ou o melhor sistema econômico me parece uma questão irrelevante para o nosso tempo, tendo em vista seu pleno triunfo e levando em conta o histórico fracasso de seu maior rival, o comunismo. A China, em seu modelo atual, é uma das maiores provas da supremacia do dinheiro ou do capital sobre qualquer outra forma de governo. O capitalismo, enfim, prevaleceu!

Em sua obra “Riqueza das Nações" (“a bíblia do capitalismo”) Adam Smith cunhou a expressão “a mão invisível”, com a qual defendeu a idéia do que o mercado, por si mesmo, é capaz de obter a máxima eficiência econômica. O Estado não deve, pois, interferir no mercado, que se auto-regula mediante esta “mão invisível”.

Charles Darwin, que conhecia muito bem a obra de Adam Smith, aproveitou-se dela, mesclando-a com a obra “Tratado sobre os princípios da população”, de Thomas Malthus, na criação do seu dístico “sobrevivência do mais apto”. Sobre isto, escreveram Adrian Desmond e James Moore, em “A vida de um evolucionista atormentado”: “Mas foram as estatísticas de Malthus que mais impressionaram Darwin em sua vida de abundância. Malthus calculava que, sem controle, a humanidade poderia duplicar sua população em apenas 25 anos. Mas não duplicava; se o fizesse, o planeta seria devastado. A luta pelos recursos desacelerava o crescimento e um catálogo horripilante de mortes, doenças, guerras e fome colocavam a população em cheque. / Darwin percebeu que uma luta idêntica ocorria em toda a natureza e compreendeu que essa luta poderia ser transformada em uma força verdadeiramente criativa.”


Esta obra de Malthus foi assim o grande “insight” de Darwin na elaboração de suas idéias sobre Seleção Natural. Isto ele deixa explícito em sua obra “A Origem das Espécies”: “É a doutrina de Malthus aplicada com a mais considerável intensidade a todo o reino animal e vegetal, porque não há nem produção artificial de alimentação, nem restrição ao casamento pela prudência. Posto que algumas espécies se multiplicam hoje mais ou menos rapidamente, não pode ser o mesmo para todas, porque a terra não as poderia comportar
.”

A Seleção Natural seria assim a “mão invisível” que faz da “livre concorrência” (“a sobrevivência do mais apto”) entre os seres vivos a
sua “auto-regulação” na Natureza. Darwin simplesmente transferiu os conceitos de livre concorrência de Adam Smith para o âmbito dos seres vivos. Ele não criou nada de novo, mas apenas adaptou o que, na sua época, era assunto de grande discussão acadêmica. O resto ficou por conta da “mão visível” de seus ideólogos admiradores.

É isso!

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Referências bibliográficas:
A Vida de um Evolucionista Atormentado: Darwin. Adrian Desmond & James Moore – Geração Editorial. São Paulo, 1995;
A Origem das Espécies: Charles Darwin. Baseado na tradução de Joaquim da Mesquita Paul. LELLO & IRMÃO – EDITORES. Porto, 2003.

Darwin e a "superioridade européia"

Que Darwin era racista, isso é ponto inconteste, todavia, se em alguns casos a “superioridade européia" (sobretudo, a inglesa) é manifestada de forma explícita em suas obras, em muitos outros ela apenas aparece de forma sorrateira, como na nota de rodapé a seguir, extraída do seu livro menos conhecido “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”.

Primeiro observamos esta sua afirmativa, extraída da referida obra:
A membrana nictitante (membrana interna do olho dos pássaros), ou terceira pálpebra, com os seus músculos acessórios e as suas estruturas, é particularmente bem desenvolvida nos pássaros, e tem uma importância funcional bastante importante para eles, pois que pode estender-se rapidamente sobre toda a pupila. Tem sido encontrada em alguns répteis e anfíbios e em certos peixes, como o peixe-cão. Está muito desenvolvida nas duas classes inferiores da série de mamíferos, isto é, nos monotremos e nos marsupiais, bem como em outros poucos mamíferos superiores, como o cavalo-marinho. Mas no homem, nos quadrúmanos e na maioria dos outros mamíferos, conforme todos os anatomistas têm admitido, se reconhece como simples rudimento que leva o nome de prega similunar (35)”, p. 28. O GRIFO É MEU.

Agora, vejamos a nota referente à afirmativa acima:
35) Müller, Elements of Physiology, trad. inglesa, 1842, vol. II, pg. 1117. Owen, Anatomy of Vertebrates, vol. III, pg. 260; ibidem sobre o cavalo-marinho, «Proc. Zoolog. Soe.», 8 de novembro de 1854. Cfr. também E. Knox, Great Artists and Anatomists, pg. 106. Este rudimento é aparentemente um pouco mais extenso nos pretos e nos australianos do que nos europeus; cfr. Cari Vogt, Lectures on Man, tradução inglesa, pg. 129.

Perceberam?

Inicialmente ele diz que um determinado traço biológico
está muito mais desenvolvido nas classes inferiores da série de mamíferos. Na nota, ele acrescenta que tal característica é um pouco mais extensa nos pretos e nos australianos do que nos europeus. A expressão “mamíferos inferiores” refere-se aos animais considerados os mais antigos na “escala evolutiva”. Em outras palavras: são aqueles que – biologicamente - mantêm características mais próximas de seus remotos ancestrais. Os “pretos e australianos”, no pensamento de Darwin, são os povos que conservam mais características comuns com os ancestrais humanos. Já os brancos europeus, por supostamente estarem “mais avançados” no processo evolutivo, estão assim mais distantes – biologicamente – desses mesmos ancestrais.

Vale ressaltar que as tais “superioridade e civilidade” dos capitalistas da Europa da época de Darwin culminaram, entre outras cousas, na exploração econômica e dominação política dos países da Ásia e África, naquilo que ficou conhecido como o Imperialismo, que ainda hoje faz transparecer suas conseqüências nefastas em muitas regiões da África e Ásia.

É isso!
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Referência bibliográfica:
Charles Darwin. “A Origem do Homem e a Seleção Sexual”. Tradução: Attílio Cancian e Eduardo Nunes Fonseca. Hemus Livraria Editora LTDA. São Paulo, 1974. (p. 28)

"Sir Isaac Newton" On Line

A biblioteca digital da universidade de Cambridge disponibilizou através da Internet imagens dos papéis de Isaac Newton (dentre outras, a famosa “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”) que podem ser visualizadas no link abaixo:

Cambridge University Library holds the largest and most important collection of the scientific works of Isaac Newton (1642-1727). We present here an initial selection of Newton's manuscripts, concentrating on his mathematical work in the 1660s. Over the next few months we will be adding further works until the majority of our Newton Papers are available on this site.

Quebra-cabeça para darwinistas

O excelente blog em língua espanhola “Darwin o Diseño Inteligente” publicou recentemente um texto intitulado “101 Desafíos al Evolucionismo Darwinista”, em referência a um livro de Lewis I. Held Junior, intitulado “Quirks of Human Anatomy” (Peculiaridades da Anatomia Humana). O texto traz algumas perguntinhas que funcionam como um verdadeiro quebra-cabeça para os afoitos devotos de Darwin, como nos exemplos a seguir:

1. Por que ou como evoluíram os pelos nos mamíferos?
2. Por que ou como evoluiu a glândula pituitária?
3. Por que o número de vértebras cervicais é tão constante nos mamíferos?
4. Por que nós, os seres humanos, não conseguimos sobreviver sem oxigênio?
5. Como nosso genoma ativa determinados genes em determinados momentos?
6. Como nossas pernas direita e esquerda crescem até o mesmo comprimento?
7. Por que a artéria aorta encontra-se no lado esquerdo nos mamíferos e no lado direito nas aves?
8. Qual é o valor adaptativo da assimetria do coração?
9. Por que o número de dedos é tão constante nos tetrápodes?
10. Como os molares infantis se transformam em pré-molares adultos?
11. Qual é o significado adaptativo do orgasmo feminino?
12. De que forma se diferenciam os cérebros de homens e mulheres?
13. Por que a mosca macho tem um músculo inútil que a mosca fêmea não possui?
14. Por que os chimpanzés não conseguem falar?

É isso!

Darwin e a causa neo-ateísta

Qual, dos grandes vultos históricos, teria melhor credencial ideológica para representar a causa neo-ateísta?

Talvez Karl Marx, que se referiu à religião como o “ópio do povo”; ou, quiçá, Stalin, Mão Tse Tung e Fidel Castro, que perseguiram os religiosos e mandaram fechar as igrejas. Indo mais longe, pode-se aventar o nome de Epicuro, o qual, embora não fosse propriamente ateu, desdenhou dos deuses, afirmando não haver motivos para temê-los, quer na vida ou quer após a morte. Temos ainda o escritor português José Saramago, que via a Bíblia como um “manual de maus costumes” e que desaconselhava sua leitura entre os jovens; também podemos fazer menção de Friedrich Wilhelm Nietzsche, o qual proclamou “a morte de Deus” e atacou frontalmente a fé cristã. Outros nomes poderiam ainda ser lembrados, tais como: Charlie Chaplin, que professou seu ateísmo, segundo ele, pelo “simples senso comum”; Sigmund Freud, que via a religião como uma neurose obsessiva; o músico inglês John Lennon, que dizia acreditar apenas em si próprio; Isaac Asimov, que via a Bíblia como a maior arma a favor do ateísmo. E, por fim, pode-se pensar no ícone atual do novo ateísmo, o ideólogo Richard Dawkins, que afirmou ser a fé um dos maiores males do mundo, comparável ao vírus da varíola, porém mais difícil de erradicar.

Razões não faltam para se eleger um desses nomes como o “melhor representante” do não-Deus ou do anti-religião; porém, é o nome de Charles Darwin que se desponta no horizonte alvoroçado desses novos ateus; Darwin é o nome mais lembrado e o que mais se liga à causa neo-ateísta, atualmente. Prova disso é a data que se escolheu para assinalar aquilo que eles denominaram de “O Dia do Orgulho Ateu”, ou seja, o dia 12 de fevereiro, o mesmo do nascimento do naturalista inglês e autor do “A Origem das Espécies”.

Não é à toa que a Evolução, para esses novos ateus, transformou-se num evento essencialmente ateísta e o que mais contrasta com a ideia de um Deus criador. Sem dúvida um enorme obstáculo aos darwinistas de tendências religiosas. Ademais, a luta inglória dos devotos de Darwin em elevar à Teoria da Evolução ao status de lídima ciência, só perde com isso, afinal, faz com que ela (A Teoria da Evolução) seja cada vez mais vista pelos crentes como uma opositora de suas crenças e, consequentemente, como um estorvo para a fé em Deus. E assim caminha a mediocridade...

É isso!

O darwinismo medieval

É amplamente conhecida a opressora atuação da Igreja em todos os âmbitos da sociedade durante a longa Idade Média. Em relação, por exemplo, aos intelectuais, sabe-se que eles não deveriam jamais ultrapassar os estreitos limites estabelecidos pelos líderes religiosos, o que poderia culminar numa perigosa acusação de “heresia”. Tudo o que a Igreja decretava como verdade, seja na esfera da fé ou da razão, deveria ser aceito incondicionalmente como sendo realmente a “verdade”. Desta forma, se a Igreja afirmava que o Sol girava em torno da Terra, ainda que houvesse provas contrárias, prevalecia sempre sua arbitrária “verdade”. Todos conhecem o caso do cientista italiano Galileu Galilei que, por apoiar a teoria de Copérnico de que o Sol (e não a terra) constituía-se o centro do nosso sistema planetário, foi preso pela Inquisição, tendo de atenuar suas convicções, visto que não corroboravam com o entendimento oficial da igreja.

Bom. A Inquisição se foi, e com ela seguiu-se a reboque toda a opressão exercida aos que ousam pensar diferente dos dogmas da igreja. Em 1978, o papa João Paulo II declarou: "A Inquisição é um capítulo doloroso do qual os católicos devem se arrepender". E, não obstante a perseguição aos intelectuais ainda persistir entre muitos grupos religiosos ao redor do mundo, nos países democráticos ela já se tornou sombra de um passado que não quer se repetir. Religião e ciência, hoje, excetuando esses grupos religiosos fundamentalistas, convivem pacificamente, com raríssimos confrontos no âmbito ético-moral.

Sendo assim, por que determinadas vertentes consideradas “científicas” ainda hoje sentem tanto temor de que uma “conspiração religiosa” venha aterrar as novas descobertas da ciência, como é o caso de boa parcela dos defensores da Teoria da Evolução, de Charles Darwin?

Pessoalmente desconheço casos semelhantes ao que ocorre no seio do darwinismo. O medo de que a Teoria da Evolução seja banida das pautas escolares transformou-se, para muitos dos devotos de Darwin, numa patológica mania de perseguição, como se a vulnerabilidade científica de seus dogmas afetassem toda a ciência, incluindo a descoberta de cura para a AIDS. Tratam a ciência como fosse um frágil rival da religião, daí todo esse desespero que até parece fugir de uma boa explicação freudiana.

Semelhantemente à Igreja medieval, esses devotos de Darwin não aceitam quaisquer contestações, as quais, na prática, transformaram-se em “perigosas heresias”. Para eles há uma só verdade, a qual deve ser preservada a todo custo. A situação é tal hoje, que qualquer cientista que apresente uma alternativa genuína a seus “dogmas científicos” logo é silenciado, sob o risco de ser mandado ao ostracismo acadêmico, sendo em consequencia disso rotulado dos mais variados adjetivos com conotações religiosas. É o medievalismo às avessas, patologicamente às avessas...

É isso!

“Hoje pavão, amanhã espanador!"

IMAGEM: "EL MUNDO"

Segundo um trabalho a ser publicado amanhã na revista "Science", uma equipe de pesquisadores liderada por por Hans-Peter Uerpmann, da Universidade Eberhard Karls, em Tübingen, na Alemanha, encontrou indícios em ferramentas que poderão fazer recuar em quase 50.000 anos a chegada dos humanos modernos na península árabe.

Até agora, pensava-se que os primeiros “sapiens”, ao deixar a África o fizeram pelo chamado “corredor do Nilo”, após cruzarem pelo estreito de
Bab-el-Mandeb, que separa o continente asiático do africano. Este trabalho, entretanto, defende a existência de uma rota de saída pelo sul do Golfo Pérsico, levando em conta que as ferramentas encontradas no sítio arqueológico de Jebel Faya possuem a mesma “tecnologia” de que se utilizavam os “sapiens” primitivos que habitavam o leste da África.

Bem. Pecuinhas evolutivas à parte, o fato é que a Teoria da Evolução revela-se uma verdadeira “colcha de Penélope”. Durante o “dia”, tece-se aos olhos dos deslumbrados darwinistas o imenso “lençol evolutivo”, enquanto na “calada da noite” cuida-se em desfazê-lo sob novos argumentos e pretextos.


Ora, se as “verdades” darwinistas são assim tão vulneráveis; se os “laços evolutivos” que as prendem mostram-se tão fáceis de serem rompidos, por que então tanta certeza, tanta jactância, ostentação e altivez?

É como dizia
Hermógenes: “Hoje pavão, amanhã espanador!"

É isso!

O primo Pongo

Segundo matéria publicada hoje no jornal espanhol “El Mundo”, um grupo de pesquisadores do Instituto de Biologia Evolutiva da Universitat Pompeu Fabra (UPF-CSIC) comprovou por meio do sequenciamento do genoma do chamado “homem da floresta” que os orangotangos compartilham 97% de seus genes com os seres humanos. Depois dos chimpanzés, o grande macaco Pongo pygmaeus seria assim aquele que mais se aproxima do homem geneticamente.

Bem. Uma pergunta que deveria ser feita em relação a este tipo de notícia seria: em que exatamente pesquisas desse viés serão de alguma utilidade para o homem e para a própria espécie arborícola?

Segundo os mesmos pesquisadores, o novo empreendimento científico culminará nos seguintes benefícios práticos para ambos os “bichos”:

1. Ajudará o homem a conhecer melhor sua evolução,
2. Trará novos conhecimentos para as pesquisas relacionadas a doenças genéticas,
3. Contribuirá para um conhecimento mais amplo dos grandes símios, os quais estão em grande perigo de extinção, ajudando assim na sua conservação.

Bom. Levando em conta que o genoma dos chimpanzés começou a ser sequenciado e decifrado nos primórdios do século XXI, e que até o momento isso não resultou em nenhuma mudança relevante para os humanos e para os macacos, pode-se concluir folgadamente que os grandes beneficiários de tais pesquisas ainda serão os próprios pesquisadores. O resto fica nas entrelinhas...

É isso!

Seleção Natural como "peça de museu"

O que você acha que vai acontecer com o homo sapiens em termos de evolução?”, indagou um darwinista num desses fóruns populares da Internet. E acrescentou: “Vi numa revista, que provavelmente vamos ser mais gordos...

Isso me levou a um artigo publicado pelo jornal americano “Times”, em 1999 (Vol. 2, nº 33 - Folha de S. Paulo), intitulado “Como o homem evoluiu”. Lá pelas tentas, ao discorrerem sobre a influência da tecnologia na vida humana, os articulistas escreveram:
“Todo o nosso conhecimento sobre evolução mostra que é necessária a existência de populações pequenas e isoladas para que haja uma mutação real, o que seria inconcebível... Um nova espécie humana está fora de cogitação. Além disso, a tecnologia eliminou essencialmente o mecanismo de seleção natural. Na pré-história, apenas os indivíduos e as espécies mais fortes sobreviviam. Hoje, os fracos e os fortes têm acesso a medicina, alimentação e abrigo num nível de qualidade e abundância nunca visto. Atualmente, os camponeses pobres do mundo em desenvolvimento vivem melhor do que vivia o imperador da China há mil anos... Por outro lado, no futuro, a manipulação do genoma humano permitirá que mudemos as características básicas de nossa espécie ao nosso bel-prazer. O caminho evolutivo por seleção natural poderá ser substituído pelo aprimoramento pela intervenção humana...”

Pode-se concluir, portanto, que a Seleção Natural no âmbito humano fora relegada às traças. As mudanças ocorridas mediante seus graduais caprichos permanecerão para toda eternidade na esfera de um passado longínquo que não pode ser pesado, medido e mensurado, mas apenas conjecturado, especulado, presumido e inferido. De resto, voltemos a Nastradamus, aos oráculos de Delfos e aos museus.

É isso!

A evolução da criatividade - V

É isso! ((rs))

A evolução das calçolas ((rs))

É isso! ((rs))

O darwinismo social

“O divisor de águas é a publicação do livro “A origem das espécies”, por Charles Darwin, em 1859. Schwarcz explica que a obra se transforma em paradigma científico, unindo monogenistas e poligenistas. Os primeiros mantiveram os critérios de raça por níveis mentais e morais, enquanto os poligenistas reconheciam uma origem única, mas argumentavam que o tempo era suficiente para separações e a solidificação de diferentes heranças.

É neste cenário que ambas as correntes se afastam da biologia e o conceito de raça passou a ser conectado a elementos políticos e sociais. O impacto das idéias de Darwin alcançaram a antropologia, história, teoria política, economia e sociologia, gerando o conceito de “darwinismo social.” Adotaram-se conceitos, nas ciências sociais, como “competição”, “seleção natural” e “hereditariedade”.

O mestiço, com base na aplicação desta perspectiva, virou sinônimo de ser degenerado e inferior.

Enquanto Broca defendia a idéia de que o mestiço, à semelhança da mula, não era fértil, teóricos deterministas como Gobineau e Le Bom advogavam interpretações opostas, lastimando a extrema fertilidade dessas populações que herdavam sempre as características mais negativas das raças em cruzamento. O certo, porém, é que a miscigenação, com a sua novidade, parecia fortalecer a tese poligenista, revelando novos desdobramentos da reflexão. As raças humanas, enquanto “espécies diversas”, deveriam ver na hibridação um fenômeno a ser evitado. (2003;57)

Respaldado pela antropologia de caráter biológico, os teóricos da raça chegaram a três conclusões:

1) A divisão da humanidade em raças era uma realidade, comparável à distância entre animais de uma mesma família. Desta forma, a miscigenação era reprovável.
2) A divisão por raças representava a diferenciação de culturas, pois a reprodução assegurava a “continuidade entre caracteres físicos e morais” . (2003;50)
3) As raças tinham peso na manifestação de comportamentos coletivos, o que reduzia a importância da liberdade de ação individual.

O fortalecimento das conclusões acima levou a um conjunto de idéias que ainda permeia as relações político-ideológicas em torno da racialização humana. Trata-se da eugenia (eu, boa; genus, geração), conceito que significa interferir na reprodução das populações. O termo foi utilizado pela primeira vez pelo cientista inglês Francis Galton em 1883. Naturalista e geógrafo, Galton ficou impressionado com “A origem das espécies” e publicou em 1869 o texto Hereditary genius, no qual defendia que a competência humana se consolidava pela hereditariedade, e não pelos processos educacionais.

Assim, as proibições aos casamentos inter-raciais, as restrições que incidiam sobre ‘alcoólatras, epilépticos e alienados’ visavam, segundo essa ótica, a um maior equilíbrio genético, ‘um aprimoramento das populações’, ou a identificação precisa ‘ das características físicas que apresentavam grupos sociais indesejáveis’. (Galton 1869/1979) In: Schwartz (2003;60)

O discurso racialista apareceu de forma enviesada no Brasil no final do século XIX. Foi um momento em o país, em vias transição do Império para o modelo republicano, recebia visitas constantes de naturalistas, que descreviam o Brasil como uma nação mestiça. No entanto, classificavam a sociedade como um país em transição. Ou seja: que os sucessivos cruzamentos embraqueceriam a população. A mestiçagem era símbolo do atraso e significaria o fracasso do Brasil como nação.

E os números serviam para ratificar os temores dos teóricos, deslumbrados com a chegada, com atraso, das teorias raciais.

Enquanto o número de cativos reduzia-se drasticamente – em 1798, a população escrava representava 48,7%, ao passo que em 1872 passava a 15,2% -, a população negra e mestiça tendia a progressivamente aumentar, correspondendo, segundo o censo de 1872, a 55% do total. Nessa mesma ótica, os dados de 1890 tornavam-se ainda mais aterradores. Ou seja, se na Região Sudeste (devido, sobretudo, ao movimento imigratório europeu) a população branca predominava – 61% - já no resto país a situação se invertia, chegando os mestiços a totalizar 46% da população local. (Schwartz, 1993; 13)

Segundo Schwarcz, a partir de 1870, a intelectualidade brasileira passou a conhecer de forma simultânea doutrinas européias como o positivismo, o evolucionismo e o darwinismo. Isso auxiliou na construção de um modelo próprio de leitura das relações brasileiras, que corriam em paralelo com alterações na legislação. Em 1871, é assinada a Lei do Ventre Livre, que punha ponto final no sistema de produção escravocrata ao libertar o filho de negros cativos. Mesmo contida, a lei do Ventre Livre casava com a postura de muitos países, que condenavam a prática escravagista.

De qualquer modo, as teorias estrangeiras não se encaixavam de maneira tão simples ao contexto brasileiro. A quantidade de mestiços era cada vez maior no quadro populacional e as idéias de controle de reprodução e de grupo homogêneo não ganhavam sustentabilidade prática, embora fossem operadas pela classe intelectual consumidora de conteúdo especializado no campo da retórica. No entanto, o Brasil como “laboratório de raças” absorveu, em suas relações cotidianas, conceitos como superioridade racial e nebulosidade no desenvolvimento futuro por causa da miscigenação. Os negros e mulatos herdeiros de um modelo escravocrata decadente, pagariam o preço do racismo, posteriormente camuflado e negado pelas classes dominantes. Nas ciências humanas, por exemplo, praticadas em Institutos Históricos, justificava-se, por exemplo, a perpetuação de posicionamentos sociais a partir de variações do conceito de “darwinismo social”.

O uso da raça virou pecha, elemento qualificatório, manipulado de acordo com os interesses de quem o utilizava. A comunidade jurídica, por exemplo, entendia que raça era uma característica particular da sociedade brasileira e que a elaboração de leis deveria se sobrepor à adjetivação racial. A classe médica, por sua vez, acreditava que raça era um elemento biológico, preponderante na diferenciação de grupos. Tratava-se de um fator relevante para a criação e implementação de políticas sanitaristas e de higiene pública.

A perspectiva eugênica perdeu força no Brasil, embora tenha colaborado na construção de posturas discriminatórias, na primeira metade do século XX. Na Europa e nos Estados Unidos, a via é oposta. Os alemães adotaram o arianismo, a busca pela raça pura, um dos pilares da doutrina nazista, enquanto os norte-americanos cristalizaram a ideologia do segregacionismo, tanto para negros como para indígenas.

Barbujani, no livro A Invenção das Raças,
descarta qualquer método científico que seja capaz de levantar possibilidades genéticas de diferença racial. Ele busca apoio, inclusive, em operações matemáticas.

Cada um de nós tem pais, quatro avós e oito bisavós. É raro que alguém conheça seus trisavôs, mas sabemos que foram 16, e assim por diante. Isso significa que, há dez gerações, isto é, cerca de 250 anos, cada um de nós teve cerca de mil antepassados (1024 para sermos exatos). (...) Douglas Rohde, do Massachussets Institute of Technology, calculou que quaisquer duas pessoas do nosso tempo têm um antepassado comum que viveu há pouco mais de três anos. (2007; 15)

Os resquícios desta prática podem ser vistos até hoje. Um exemplo são as inúmeras denominações presentes em pesquisas demográficos. Termos que – de alguma forma – servem para se evitar o peso histórico e cultural das palavras negro e preto. Era possível perceber dezenas de nomenclaturas quando a resposta era auto-declaratório. Expressões como moreno, mulato, pardo, pé na cozinha e outras demonstravam o imaginário popular brasileiro.

Na África do Sul, por exemplo, em tempos de apartheid, chineses eram chamados de asiáticos e japoneses, de brancos.”

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É isso!

Fonte:
Marcus Vinicius O.A. Batista: “Giz de cor: um olhar de professores negros sobre as relações raciais nas escolas públicas”. (Dissertação apresentada no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação da Universidade Católica de Santos, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação, sob a orientação da Prof. Dra. Maria Helena Bittencourt Granjo). Universidade Católica de Santos. Santos – SP, 2008.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

A persistência da Teleologia nas Ciências Biológicas

“A causal final ou teleológica serviria para respondermos, ante um processo ou entidade, a pergunta “Para quê?” Os conceitos e idéias a respeito da teleologia passaram por uma série de transformações ao longo do tempo. Entretanto, Ayala (ibid.) afirma que não há hoje um consenso sobre o conceito de teleologia, de forma que não se tem uma única idéia sobre o tema.

Em vários contextos inquisitivos, particularmente na Biologia e no estudo das relações humanas, a resposta teleológica se caracteriza como uma das melhores opções, ao elucidar as funções de uma unidade, mantendo as características de um sistema ao qual pertence, ou indicando o papel instrumental que exerce em função de um objetivo a alcançar. Contemporaneamente, entretanto, os argumentos teleológicos são vistos por alguns cientistas apenas como uma forma de expressão para tornar rápida e convenientemente inteligível o comportamento de estruturas desenvolvidas ao longo do tempo por meio da seleção natural normalizadora. As explicações teleológicas não exigem de seus “agentes” que sejam conscientes, como é o caso dos movimentos dos corpos na Física de Aristóteles, ou seja, nem sempre as explicações teleológicas possuem fundamentos antropomórficos, embora as mesmas se apropriem legitimamente dos fenômenos oriundos do comportamento humano.

Como nos referimos anteriormente, Souza (1999), destaca o embate durante todo o processo histórico de formação da Biologia, no qual duas formas de concebê-la são apresentadas. De um lado, a perspectiva mais vitalista e teleológica. De outro, uma visão mais materialista e causalista. Se por um lado a concepção naturalista da Biologia subsidiada em uma visão de mundo escolástica, na sua perspectiva teleológica, ganha espaço porque se aproxima da religião, por outro, perde em objetividade e rigor (Smocovitis, 1996; Foster, 2005). Quando o caminho inverso é tomado por uma nova visão de Biologia, matematizada e com todos os requisitos de rigorosidade e objetividade que o modelo de ciência positivista da época exige, corre-se o risco da perda de sua identidade, enquanto campo “autônomo” e independente de conhecimento (Smocovitis, 1996).

Os trabalhos de Darwin desempenharam um papel fundamental neste contexto quando as idéias de Spencer e admite que o termo ”persistência do mais apto” é mais exato e por vezes mais cômodo que a seleção natural. O sentido da competitividade se acirrava novamente, os mais bem adaptados são aqueles que saem vitoriosos na luta pela sobrevivência que mimetiza a competição mercantil da época. O fato é que Origem das espécies de Charles Darwin subsidiou diferentes discussões, em diferentes áreas do conhecimento e em diferentes práticas sociais. Gerou também muitas expectativas e uma delas girava em torno da exclusão dos aspectos metafísicos das Ciências Biológicas. É dentro deste contexto que a história da Biologia se edifica, entremeada por conflitos de ordem metafísica, há muito entranhada nas ciências naturais, e conflitos de ordem político-econômica e social.

Parece ser de consenso geral que o Iluminismo – mais precisamente a revolução científica dos séculos XVII e XVIII – desmantela a visão teleológica dos mundos da natureza, da ciência, da religião, do Estado e da economia; embora Foster (2005) ressalte que neste período houve tentativas poderosas de restabelecer a religião nesta perspectiva. Acreditava-se até então, que o advento das teorias de Charles Darwin pudessem eliminar de vez a visão teleológica de mundo. Como epílogo deste evento, diferentes autores (Foster, 2005; Mayr 1998a, Brody & Brody, 1999 e outros) destacam o famoso debate ocorrido no dia 30 de junho de 1860 na Associação Britânica para o Progresso da Ciência, entre Thomas Huxley (fiel discípulo de Darwin) e o bispo Samuel Wilberforce (ornitólogo e matemático) como marco da separação entre ciência e religião, e, portanto o começo da extirpação da teleologia na Biologia
.

Contudo, inúmeros sinais apontam para a presença da teleologia na Biologia. Segundo Martinez & Barahona (1998), Asa Gray – destacado botânico do século XIX – afirmou que a maior contribuição de Darwin foi reincorporar a teleologia às Ciências Naturais. Para o botânico, o aporte dado por Darwin consiste na explicação estável de fenômenos naturais a partir de “forças cegas” como a seleção natural. As implicações dos trabalhos de Darwin na discussão filosófica acerca do que é na verdade uma explicação científica são profundas e o retorno da teleologia as ciências naturais - mais precisamente à Biologia - é bastante significativo.

Martinez & Barahona (1998) ressaltam que este é o primeiro passo para um tipo de naturalismo que será defendido por Pierce e Dewey dentre outros filósofos do final do século XIX. Trabalhos como os de Wimsatt (1998) e Becker (1998), propõem posições intermediárias que possibilitem, em certa medida, mostrar que a teleologia pode sim se unir a ciência, mais como recurso explicativo. E é neste sentido que autores como Ayala (1998) crêem que as explicações teleológicas são compatíveis com as explicações causais. Para este autor as explicações teleológicas em Biologia evolutiva podem mostrar o desenvolvimento de um órgão, porque revelam como este contribui para a adequação do organismo.

Uma das perguntas que os Biólogos se fazem sobre as características dos organismos é: Para que? Qual é a função ou o papel de uma determinada estrutura no processo? A resposta a esta pergunta pode-se realizar teleologicamente. Uma explicação causal do funcionamento do olho não responde satisfatoriamente, ainda que esteja correta, porque não nos diz tudo que é importante sobre o olho, que na realidade serve para ver. Ferreira (2003) argumenta que quando obtemos respostas acerca de como se dá um fenômeno podemos chegar a conseqüências úteis do conhecimento, úteis no sentido de dominação da natureza.

Na descrição histórica das seqüências evolutivas, o problema às vezes se inverte: é fácil identificar a função que um órgão cumpre e mais difícil saber por que essa característica aumentou o sucesso reprodutivo que o favoreceu pela seleção natural. As explicações teleológicas têm grande valor heurístico na biologia evolutiva. Assim existem dois tipos de problemas para explicar a evolução mediante a seleção natural: determinar se a seleção natural está envolvida em uma determinada mudança genética e identificar concretamente a adaptação envolvida na mudança genética.

A seleção natural é o processo responsável pelas adaptações dos organismos, porque fomenta a multiplicação de variantes genéticas úteis a seus portadores. E assim como a seleção natural explica as adaptações dos organismos, como os olhos, as asas e a flores da mesma forma que explica a multiplicidade de espécies. Para Ayala (1998), a seleção natural foi o grande descobrimento de Darwin, que torna possível explicar cientificamente a teleologia do mundo vivo.”

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É isso!


Fonte:
Maicon J. C. Azevedo: “Explicações teleológicas no ensino de evolução: um estudo sobre os saberes mobilizados por professores de Biologia”. (Dissertação de Mestrado apresentada ao programa de Pós-graduação em Educação, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Prof.a Dra. Sandra L. Escovedo Selles. Co-orientadora: Prof.a Dra. Ana Cléa M. Ayres). Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2007.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.